Estudo de caso Anorexia Nervosa em Adolescentes in: Barreiras autistas em pacientes neuróticos

Estudo de caso extraído do texto Anorexia Nervosa em Adolescentes in: Barreiras autistas em pacientes neuróticos
Aluna: Rosele Barcelos de Souza

Resumo

Estudo de caso extraído do texto Anorexia Nervosa em Adolescentes in: Barreiras autistas em pacientes neuróticos. Que relata o tratamento de uma paciente de treze anos levada à internação por um quadro de anorexia. O presente revisão teórica do tratamento em questão visa demonstrar as facetas realizadas pela dupla terapêutica durante o período de internação, as estratégias da terapeuta e as fantasias estabelecidas pela paciente, assim como o trabalho de contratransferência e interpretação que se deram ao longo do tratamento.

Caso

Margareth, 13 anos, faz aulas de ballet desde os 9 anos, a mãe sempre desejou ser uma bailarina. Apresenta amenorreia, falta de apetite, perda drástica de peso, teve um desmaio numa aula de orientação sexual, abomina qualquer assunto referente a sexo ou menstruação. O pai era marinheiro e ao sumir no mar quando Margareth tinha 4 meses, a mãe desencadeia uma grave depressão e seca seu leite. Margareth não se adaptou a mamadeira e dormia durante as mamadas. O pai retornou depois de um longo período desaparecido, logo a mãe engravida, quando a menina estava com três anos, Margareth desenvolve uma gastroenterite severa e é internada. A mãe descobre uma diabetes que lhe causa comas e é internada muitas vezes. O pai rejeitava a filha, mas ia visita-la no hospital. A mãe relata que tem uma relação muito intima com a filha e a tem como uma irmã mais nova. A mãe de Margareth engravida por mais duas vezes tendo ela três filhos homens e Margareth. O pai mostra uma evidente preferência pelos filhos homens.

Após os sintomas de anorexia nervosa aos 13 anos Margareth é internada e encaminhada para psicoterapia, que se dava três vezes por semana. No início do tratamento Margareth não falava, ficava quieta e não direcionava o olhar para a terapeuta. A terapeuta utiliza de uma análise focada na relação transferencial com a paciente.

Percebe que Margareth tem um funcionamento desintegrado onde pontos positivos e negativos dos objetos não se relacionam. A terapeuta utiliza de um método

onde não ofertava ou sugeria comida, nem a visitava ou dava presentes no hospital. Era pontual nos atendimentos e não tentava tranquilizar a paciente no que dizia respeito a seu desespero por sentir-se indigna de amor.

Utilizava da transferência evocando experiências pré-verbais e primitivas da paciente. Sentia muita dificuldade de contato pelo retraimento que Margareth apresentava. Utilizava de uma fala simples e direta tentando dar vazão ao jogo de sentimentos que ali se instaurava. Na falta de associações verbais, outros detalhes eram utilizados, como a interpretação de singelos gestos e olhares. As interpretações se davam num primeiro momento de acordo com qualquer mudança de postura, expressões faciais e movimentos das mãos de Margareth. Percebe que a paciente tem um tique nas mãos.

Na primeira sessão Margareth deita-se sobre o divã, envolta por um cobertor, não lança olhares para a terapeuta, tão pouco fala. A paciente tem um olhar apreensivo, interpretado pela terapeuta como um receio ou medo de toda aquela situação nova no ambiente hospitalar, toda uma equipe e pessoas que vão e vem.

A menina diz com uma voz uase inaudível, que sua professora prometeu-lhe visitar naquele dia e não foi, a terapeuta precisa se aproximar para escutar suas fracas palavras, e percebe um mau odor exalando do corpo da paciente, mas o suporta. A terapeuta interpreta a fala da paciente como um sentimento de desesperança, abandono e medo da decepção, e diz que seus encontros estão confirmados para as semanas que seguem e explica dias e horários de atendimento. A partir disso Margareth se mostra um pouco menos retraída e fria e aconchega-se em seu cobertor sobre o divã, o que remete a terapeuta a uma criança sendo amamentada. Nas sessões seguintes Margareth se mostra confiante pela constância das sessões, engorda 200 gramas, o que a terapeuta interpreta como uma recompensa a ela, que a alimenta com suas palavras. Margareth parece estar acreditando que possa ser ajudada física e moral, o que antes lhe parecia humanamente impossível. A terapeuta passa a construir uma associação da amamentação na primeira infância, o que desencadeou uma fantasia inconsciente sobre a alimentação e as relações sociais que a permeiam.

A partir do vínculo estabelecido, os estímulos para viver passam a se ligar diretamente a pessoa da terapeuta. Que passa a ser objeto totalmente bom, lhe dando esperanças de melhora ou totalmente mal, lhe sucitando uma inveja pela vivacidade da mesma e de sua liberdade de ir e vir do hospital e ter uma vida fora dele. Às vezes sentia-se ameaçada pelo espaço das sessões e seu peso voltava a cair. A tia de

Margareth que estava grávida logo que a menina foi internada, tem o bebê, e Margareth se identifica com essa, tendo fortes dores abdominais clinicamente sem explicação. A terapeuta associa o fato à gastroenterite que a menina teve quando a mãe engravidou de seu primeiro irmão. O comer para Margareth era como alimentar um bebê feito ás custas da terapeuta, seu sentimento de inferioridade por ser uma menina era claro, assim, preferia não menstruar, não realizar as aulas de ballet, que a identificavam com a mãe, uma mãe fraca e depressiva.

Após algum período, a paciente dá-se conta que a figura da terapeuta não é onipotente, e que se ela não comer irá morrer. Sentia-se sugando a terapeuta, mas por falta de confiança não conseguia ter nenhuma atitude que pudesse reavivar o interesse da terapeuta, assim como sentia-se em relação a mãe, desde seus quatro meses, ao secar o leite pela depressão da mãe, o retorno do pai, as gestações complicadas da mãe, diabetes, comas. Precisava acreditar na onipotência da terapeuta pois só assim poderia estar protegida, elas eram uma só, se a terapeuta morresse ela também morreria. Ate então, só havia internalizado nela uma mãe fraca, doente, quase morta, de quem não conseguia se libertar, por isso sentia-se impotente, fraca, quase morta.

Pensava esgotar a terapeuta com suas demandas, a doença incurável da mãe a fazia pensar que nada que pudesse fazer seria suficiente, por isso sua sensação de inutilidade e inadequação.

A dança, o ballet, que era um sonho da mãe se torna sem sentido, pois todo movimento é vida e suas incertezas eram quanto a crescer, se divertir, progredir ou ficar quieta, deprimida e morrer. Viver era confrontar a mãe, e desapontá-la satisfazendo seus instintos femininos e rivalizando com ela. Mostrava isso na sua relação transferencial com a terapeuta, onde procurava o cuidado a atenção que necessitava, mas hesitava em despertar a inveja e a hostilidade e acabar por esgotá-la, se mostrando dócil e submissa por algumas sessões. Seus impulsos agressivos apareciam noutra menina do hospital, que mordia a irmã na enfermaria. Mostrava o medo de morder, de seus instintos agressivos, mais uma explicação para sua restrição alimentar.

Após um longo período de tratamento, onde após a alta hospitalar a paciente continuou sendo atendida ambulatorialmente, mostrou-se apta a realizar tarefas de o cotidiano como estudar e trabalhar, reatou amizade com uma antiga amiga e mais tarde casou-se e teve filhos. O tratamento com a terapeuta seguia e sua vida era vivida normalmente.

Este caso clínico pode explicitar que a anorexia é muito bem explicada por conflitos das relações entre pai e mãe, aprisionamento e liberdade gravidez e esterilidade e vida e morte. O sucesso do tratamento resultou na solução de uma elaboração do conflito muito precoce da ligação da paciente com a mãe através da terapia analítica detalhada.

Conclusão

É possível concluir pela apresentação deste caso, que o trabalho de utilizar da técnica da análise transferencial e interpretações diretas, assim como o respeito ao timing da paciente foram cruciaisl para o sucesso do tratamento, assim como o respeito a história de vida da paciente. A comunicação estabelecida assim como noutros casos de transtornos alimentares, pareceu por vezes insuficiente e a destreza da terapeuta em interpretar a linguagem não verbal da paciente no inicio do tratamento, foi crucial para o desenvolvimento do mesmo. A transferência adesiva da paciente mostrou sua forte dependência emocional e psíquica e serviu de subsídio para a condução da técnica a ser realizada.

Bibliografia

Tustin, F. (1990). Anorexia nervosa em adolescentes. In: Barreirras autistas em pacientes neuróticos. Porto Alegre: Artes Médicas.