O TRABALHO DOS VÍNCULOS FAMILIARES NA CLÍNICA PSICANALÍTICA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

Rita de Cássia Benjamin Sulzbach

Introdução

O vincular se refere à produção de subjetividade, sendo que esta se faz com outros, entre outros. O vincular cria e marca um território, uma borda entre os sujeitos que os une e também os separa. É uma fronteira onde cada um dos territórios subjetivos se separa e se une, situando-se o alheio (BERENSTEIN, 2007).

A intersubjetividade abrange o campo do entre dois, onde o sujeito, sem deixar de sê-lo, produz e se produz como outro, por ação da relação com o outro. Assim, o entre é uma produção constante do entramado das subjetividades. Na contemporaneidade, trabalha-se com o conceito de bidirecionalidade do vínculo e de interfluência, em que cada um promove ou paralisa o crescimento do outro, o que permite uma produção recíproca de subjetividade (SEVERO, 2014).

Nessa perspectiva, a teoria das configurações vinculares se fundamenta na teoria da complexidade, passando de uma causalidade linear para uma causalidade ampliada. Além do conhecimento do funcionamento do inconsciente, acrescenta-se o conhecimento das redes para entender o que se passa no vínculo. Acredita-se que numa rede cada componente participa na produção e transformação dos outros componentes desta (CAPRA, 1996).

Assim, a subjetividade vincular reconhece que um sujeito vem a ser outro através desse vínculo com o outro, sendo que nenhum deles é o centro de si mesmo nem da relação. Ambos se produzem a partir de relações de poder que ocorrem no vínculo (SEVERO, 2014).

Uma relação amorosa se configura em um contexto compartilhado, existindo uma situação recíproca de ego desejante e objeto desejante, suscetível de ajudar na realização do desejo do outro. O enamoramento reedita a necessidade de um contexto único, no qual não existem diferenças. Posteriormente, as novas demandas geradas pela cotidianidade, pela presença dos filhos e outros acontecimentos rompem essa ilusão (BERENSTEIN, PUGET, 1994).

Nesse contexto, uma relação deve ser uma relação real entre dois termos. Se esses termos são realmente diferentes, a relação deve conter essa diferença. Se suprimirmos a diferença, a relação já não é uma relação real. Desse modo, uma relação entre homem e mulher indica uma diferença não simétrica (BADIOU, 2000).

Desse modo, o trabalho da clínica psicanalítica, através de um olhar vincular permite uma revisão dos estereótipos e normas oriundas das famílias de origem ou do social, com o efeito de ressignificação e novas inscrições. Assim, pretende proporcionar aos sujeitos uma abertura a recíprocas curiosidades, conhecimento e respeito pela singularidade e os efeitos do entre dois (SEVERO, 2014).

A Relação Conjugal

A família é um conjunto de pessoas ligadas por determinados laços de parentesco por alguma relação consanguínea, ou atribuída. Alguns dos motivos de discussões e brigas entre casais são oriundas de seus modelos familiares, por não conseguirem se desprender desses modelos, para então, criarem o seu próprio. Quando o casal não se desvincula das famílias de origem, não consegue formar a sua própria família, o que gera uma sensação de frustração entre o casal, havendo dificuldade de escutarem um ao outro, pois isso envolveria reconhecer a diferença ou autonomia do outro (PONSI, SEVERO, NIEDERSBERG, TUBINO, 2015).

No casal aparece uma confusão entre figuras parentais próprias de cada um e o que é do outro e do casal como alteridade. Eles trazem de suas famílias significados que interferem no vínculo de casal, e esse lugar não está preparado ou não é adequado para receber esses significados de origem, que insistem em alojar-se. Isto resulta em um mal-estar ou mal-entendido, pois o outro não cumpre com as expectativas, sendo culpabilizado. O que ocorre nesses casais é que ambos estão muito ligados às suas famílias de origem, permanecendo emocionalmente infantis, produzindo um relacionamento narcisista que dificulta a criação de uma nova maneira de consolidar o vínculo conjugal (PONSI, SEVERO, NIEDERSBERG, TUBINO, 2015).

No tocante à comunicação entre o casal, entende-se que quando se fala, se fala para alguém, um outro diferente de mim. O casal que deu certo fala sem dar ordens, sua fala não é uma luta de poder. Já o casal que não está bem descuida da comunicação ou não sabe se comunicar. Nesses casos, a palavra deixa de ser veículo de comunicação e se torna um instrumento a serviço de projeções agressivas, sendo que em vários momentos inexiste a troca, prerrogativa do diálogo, onde devem existir duas liberdades: a de quem fala e a de quem ouve (PONSI, SEVERO, NIEDERSBERG, TUBINO, 2015).

Assim, considera-se a comunicação entre duas ou mais pessoas algo complexo, sendo fundamental trabalhar a comunicação no tratamento de questões conjugais. Nessa perspectiva, faz-se importante as seguinte reflexões: como efetivamente o sujeito escutou o que veio do outro, e de que outro está falando? Da pessoal real que se apresenta ou de uma projeção de algo interno ou do imaginário? Como interpretamos cada mensagem verbal ou não verbal que vem do outro? (PONSI, SEVERO, NIEDERSBERG, TUBINO, 2015).

Quando a comunicação entre o casal é falha, em muitos momentos o dizer é forçado, difícil, girando em torno dos pensamentos e os escondem. Oscilam entre o esforço de comunicar e o de esconder o que pensam, lançando pensamentos de forma fragmentária, em sentenças curtas, ambíguas e paradoxais, que parecem significar muito mais do que dizem, havendo um jogo de linguagem para culpabilizar o outro pelo ocorrido. Casais que não possuem sintonia, comunicam-se através de frases truncadas, pois querem a linearidade, escutando apenas pedaços de frases do outro. Assim, observa-se uma ondulação afetiva que muda de forma inesperada, gerando reviravoltas nos discursos (PONSI, SEVERO, NIEDERSBERG, TUBINO, 2015).

Desse modo ato comunicativo no casal é entendido como uma incógnita, pois o outro tem que descobrir o que vem do outro para depois devolver uma expressão contendo uma nova incógnita, acrescida de sentido próprio. Assim, a concordância nunca será completa, exigindo ajustes através de um trabalho permanente. Para os autores, a disfunção do processo de comunicação está apoiada na ilusão de entendimento, onde ocorre uma divergência de interpretação entre o casal que compartilha, ou acredita compartilhar, significados e sentidos (BERENSTEIN E PUGET, 1994).

Nesse sentido, casais com maior diferenciação conseguem se comunicar de forma mais fluida, havendo um diálogo menos permeado por projeções, com riqueza de simbolização, metáforas e bom humor. Já os casais em crise, ou aqueles com uma origem narcisista, quando um entende algo diferente do pretendido, acabam provocando uma irritação e um mal-estar, dificultando a comunicação e comprometendo o clima emocional entre as partes. Desse modo, o casal perde contato com a diversidade do outro, havendo uma única relação significado-significante, o que faz com que a comunicação se torne escassa, distorcida, frustrante, resultando em sentimento de incompreensão e distanciamento afetivo (PONSI, SEVERO, NIEDERSBERG, TUBINO, 2015).

Nessa perspectiva, o casal precisa criar seu próprio código de comunicação, servir-se dos códigos das famílias de origem para, então, dar à dupla a liberdade própria. A língua nova obriga a uma posição e movimentação do corpo completamente diferentes. Desse modo, o casal deve criar e preservar aquilo que lhe dá identidade, pois as coisas acontecem no entre dois, somos feitos do vincular, sendo a identidade desde o entre, uma produção constante do vínculo (SEVERO, 2014).

Ao tratar dessas questões na clínica psicanalítica, é importante investigar como o paciente reage ao novo, bem como criar espaço para manobras que permitam uma maior flexibilidade na comunicação do casal, através da retomada do diálogo e a possibilidade de se reinventar. A competição sempre existirá, mas deve ser trabalhada de forma a enriquecer a experiência da vida a dois, havendo uma disputa para construir alternativas criativas e expandir opções intelectuais e cotidianas. Assim, uma das funções do terapeuta é detectar, denunciar e esclarecer essas disfunções comunicativas, de forma a trabalhar com os pacientes como escutam o outro, como informam ao outro e que fatores contribuem para a incompreensão (PONSI, SEVERO, NIEDERSBERG, TUBINO, 2015).

A Relação Pai-Filho

Quanto à constituição do psiquismo familiar, entende-se que a escolha de objeto sexual, mobiliza os inconscientes individuais, fazendo surgir o inconsciente do casal e, logo, da família. A ressonância do objeto interior inconsciente do sujeito com o parceiro, bem como do parceiro com o sujeito resulta em uma dupla ligação ego-objeto inconsciente, sendo estas relações objetais entrecruzadas que fundam o mundo de objetos inconscientes partilhados. Na ocasião da chegada do filho, os objetos do mundo interno inconsciente da família são projetados nele. Os aspectos não resolvidos, através da relação marital, dos complexos infantis do pai e da mãe, intervêm parcialmente na constituição do ser infantil e de seu mundo objetal e fantasmático. Desse modo, entende-se que a organização do psiquismo familiar não é uma questão simples, visto que o mundo interno da família está atravessado por estas múltiplas representações de objetos (EIGUER, 1989).

Nessa perspectiva, o nascimento do primeiro filho, onde o casal deixa de ser fonte única de libidinização, implica a aquisição de um novo estatuto familiar, bem como um novo papel para os pais, acarretando em mudanças no funcionamento do casal. Trata-se da ruptura entre o passado e o presente, crise que implica uma quebra do espelho narcísico, gerando um não reconhecimento das partes e exigindo uma ressignificação dos papéis familiares (EIGUER, 1989).

Em relação às distintas funções, paterna e materna, acredita-se que estão atravessadas e se moldam através das características identificatórias de cada um dos sujeitos, as vivências pessoais, as recordações e também os furos de significação, o traumático. Além disso, as funções parentais se constroem junto com o aprendido em novos vínculos, com o criativo e com a experiência do inédito (GOMEL, MATUS, 2011).

No tocante à função paterna, entende-se que está é real, é presente, sendo que o pai opera um cuidado de qualidade amorosa, empática e num outro nível opera na qualidade da lei. Somente a interdição não constrói a relação pai-filho. Assim, para que a criança acredite no pai e respeite a autoridade, é preciso que o ame e saiba que é amado. A criança precisa se orgulhar do pai que tem e que é capaz de proibi-la, havendo uma corrente terna, carinhosa, presente na relação com o pai e o filho. Em toda relação paterna deverá haver algo de maternal, assim como na relação materna deverá haver algo de paternal (PONSI, SEVERO, NIEDERSBERG, TUBINO, 2015).

Nessa perspectiva, o pai inicialmente entra na relação com o filho sendo uma duplicação da figura materna, se inserindo na vida da criança com um aspecto da mãe que é duro, severo, indo, através de circunstâncias favoráveis, gradativamente se tornando em um ser humano capaz de ser odiado, amado e respeitado. Assim, o modo de ser do pai determina a forma como a criança usa ou não esse pai, ou seja, o pai pode estar ausente ou ser bastante presente, sendo que essas questões fazem uma grande diferença no significado da palavra família para a criança (WINNICOTT, 1984).

A Constituição Da Família E Sua Relação Com As Famílias De Origem

A escolha conjugal é determinada pela história infantil dos cônjuges, a situação de cada um no momento do encontro e certa dose de acaso, que possibilita que as pessoas coincidam em um lugar e época determinada. Assim, a escolha do par resulta numa solução de compromisso entre desejos adultos e infantis, sendo que o casal se constitui com ideais próprios e ideais parentais (LOSSO, 1998).

Nesse sentido, a atualização do mundo interno de cada cônjuge ocorre através da escolha mutua, caracterizada pelo enamoramento e selada nos acordos e pactos inconscientes. Esses acordos e pactos inconscientes podem impulsionar a complexidade da relação ou levar a repetições de modelos primitivos, visto que todo acorde se baseia no reconhecimento da diferença entre o eu e o outro. Ao longo do relacionamento, os acordos precisam ser atualizados, caso contrário podem comprometer o vínculo (BERENSTEIN, PUGET, 1994).

Desse modo, todo vínculo resulta em um conjunto de acordos que determinam um modo de ligação. São acordos onde as partes estabelecem o mais conveniente para a dupla, sendo que o modo como o casal vai investir afetivamente nessas regras, como vão articular suas expectativas, determina a manutenção do vínculo (SEVERO, 2014).

Quando o casal se forma, é importante estabelecer a diferença entre o conceito de objeto e de outro, pois a noção de outro excede a de objeto, sendo que a pessoa real se apresenta com sua condição de estranho, ocorrendo desilusões. A diferença do outro exige do sujeito uma modificação, pois mostra que o outro é diferente da expectativa criada. Com o casamento o sujeito deixa de ser um filho solteiro para ser um filho casado. Depois, deixa de ser filho para ser pai. Existe uma mudança de papéis e de funções que o coloca em uma situação nova e o obriga a modificar-se. Mas toda mudança psíquica implica um trabalho vincular e movimentos resistenciais ao vínculo e por estar vinculado (SEVERO, 2014).

Existem mapas emocionais moldados em nossas famílias de origem que marcam nosso comportamento e vida cotidianos, influenciando nossas preferências e gostos. Porém, a língua aprendida nas famílias não restringe nossa mente, visto que somos capazes de aprender coisas novas e mudar nos conceitos. Há algumas coisas que nossas famílias nos obrigam a pensar, mas por sorte não temos uma só origem, pois somos a multiplicidade de relações e a novidade de estar com o outro que é diferente, surpreendente (SEVERO, 2014).

Assim, quando um casal se forma, isso implica sentir-se pertencendo a esse vínculo e reconhecido pelo outro. Desse modo, muito da autoestima de cada um do casal depende de como estão sintonizados e reconhecidos nesse vínculo, sendo que a condição de homem ou de mulher depende de como o sujeito é visto pelo seu parceiro (KRACOV, 2005).

Considera-se que os casais que se dão bem ou deram certo são os enamorados, sendo aqueles que conseguem reagir a situações desafiadoras. São aqueles que não caem na repetição, não aplicam conceitos já prontos, pois são capazes de inventar uma relação diferente através da própria história. Entende-se que a história nos delimita, porém não diz tudo a respeito do que somos, devendo a história de nossa família ser pensada e ultrapassada para pensarmos quem somos (SEVERO, 2014).

Nessa perspectiva, para que um casal se estabeleça e, logo, se constitua como família, é preciso que ambas as partes estejam abertas ao que não vem do familiar, saindo de um padrão de repetição que impede a construção do casal. Assim, para que o casal possa formar esse novo vínculo, deve estar aberto a um novo contexto, uma vida diferente. O encontro com o outro deve permitir um reordenamento para a construção de acordos comuns, novos e exogâmicos, sendo os acordos únicos de cada casal, que só eles conhecem e estabeleceram que sustentam o vínculo (BERENSTEIN, PUGET, 1996).

Considerações finais

            O tema foi escolhido devido à frequência com que as questões referentes às relações e aos vínculos familiares se apresentam na prática clínica. Nesse contexto, constatou-se que a produção da subjetividade está baseada nos vínculos, construindo-se na relação com o outro. Não obstante, identificou-se a complexidade das relações familiares, visto que se configuram em um contexto compartilhado.

Também foi possível perceber a importância de buscar uma maior compreensão acerca da temática dos vínculos familiares, afim de poder desenvolver um olhar clínico mais sensível quanto a essas questões. Nesse sentido, constatou-se que o trabalho da clínica psicanalítica, através de um olhar vincular, possibilita uma revisão dos estereótipos familiares, buscando proporcionar ressignificações e novas inscrições nos vínculos familiares.

            Através desse estudo, percebeu-se a importância de maior quantidade de estudos e pesquisas que abordem o tema. Disseminar conhecimento teórico e poder colocar na prática o trabalho dos vínculos familiares na clínica é uma maneira de mostrar os benefícios proporcionados pelo trabalho vincular.

Referências Bibliográficas

BERENSTEIN, I. Del Ser Al Hacer. Buenos Aires: Paidós, 2007.

BERENSTEIN, I.; PUGET, J. Psicanálise Do Casal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

CAPRA, F. A Teia Da Vida. São Paulo: Cultrix, 1996.

EIGUER, A. Um Divã Para A Família – Do Modelo Grupal À Terapia Familiar Psicanalítica. Porto Alegre: Artes Médicas ,1989.

KRACOV, H. A. Outra Vez En Pareja – Nuevos Vínculos Viejos Tzures. Buenos Aires: Editorial Milá, 2005.

LOSSO, R (1998). A Psicanálise E O Casal. In: Psicoanálisis De La Familia. Recorridos Teórico-Clínicos. Colección De Psicologia Integrativa, Perspectiva, Interdisciplinária. Buenos Aires: Lumen, 2001.

PONSI, A.; SEVERO, A.; NIEDERSBERG, M.; TUBINO, R. Os Dois Lados Do Espelho: Relato De Uma Experiência Em Psicanálise Vincular. Porto Alegre: AGE, 2015.

SEVERO, A. O Suave Mistério Amoroso: Psicanálise Das Configurações Vinculares. 1. ed. Porto Alegre: AGE, 2014.

WINNICOTT, D. W. (1984). Tudo Começa Em Casa. São Paulo: Martins Fontes, 2005.